quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

I Preceito particular contra a opinião - Capítulo III

CAPÍTULO III
Agora, ser-nos-á fácil responder ao Filósofo que achava pouco razoável a máxima sobre a premeditação dos males [no original latino, Nieremberg cita nominalmente o filósofo Simplício da Cilícia (c. 490 - c. 560), que era neoplatônico; ndt]. Justificaremos muito facilmente que a objeção com a qual ele pretendia combater essa máxima era frágil e ela mesma pouco razoável. Ele dizia: representar em si os males quando eles ainda não existem, sem dúvida é fazê-los chegar mais cedo, é precipitar a sua chegada. Não somente esta premeditação não nos traz vantagem alguma, como também nos causa pena; ela faz com que soframos antes que nos seja necessário sofrer. E, como se já não fosse suficiente o mal que nos atinge, nós ainda suscitamos em nós mesmos um novo; fazemo-nos infelizes antes do tempo; antecipamos nossa miséria através de nosso pensamento. Será que não nos é suficiente ter problemas com a incapacidade de nos defendermos do mal quando ele chega contra a nossa vontade, e ainda termos que nos atormentar sem necessidade alguma? Será que nossos cuidados não seriam mais felizmente empregados se nos dedicássemos ao menos a diminuir nossa dor, ao invés de nos tornarmos engenhosos no trabalho de fazê-la crescer? O que diremos nós depois de termos ouvido este Filósofo, que nos aconselha a fechar nosso espírito às imaginações tristes e incômodas, e que quer que o tenhamos leve e livre de dores e de tristezas, e que arranquemos dele tudo o que possa lhe causar isso? Não apenas ele não aprova esta premeditação, como também ele a rejeita fundado no fato que, segundo ele, estaríamos, assim, continuamente com problemas, e poderíamos acabar nos resolvendo a nunca saborear a alegria, se fosse realmente necessário que tivéssemos no espírito, incessantemente, a Ideia das infelicidades que nos podem chegar. Certamente, os males são suficientemente sensíveis quando estão presentes. A amargura, que é inseparável de todos os males, quando eles estão presentes, nos é muito incômoda, sem que precisemos pensar nela antecipadamente e nos atormentemos fora de época. Se o mal não nos chegar de forma alguma, quão grande terá sido a nossa pena de nos termos atormentado sem necessidade? Quanta dor verdadeira sentiremos por termos sentido uma dor falsa e sofrido tão inutilmente? Eu vos pergunto, para que nos afligir sempre e nos condenarmos a uma perpétua miséria, seja pelo necessário sofrimento dos males, seja por esta importuna e cruel premeditação? Estes dois Filósofos pretendiam, assim, convencer acerca do erro dessa máxima [no original latino, Nieremberg cita também o filósofo Epicuro, e estranhamente o tradutor não faz referência a ele até a este ponto do texto; ndt]; mas, evidentemente, eles não se convenceram a si mesmos ao não considerarem que há muita diferença entre representar os males dentro de si, na preocupação e no incômodo do Entendimento e pintá-los de capricho e fragilidade para sentir medo deles, e representá-los com um espírito firme e tranquilo, para estudá-los e conhecê-los; de forma que seja possível se determinar firmemente a crer e saber verdadeiramente se são males ou não. Nisso, esta premeditação é excelente, visto ser por meio dela que fazemos este estudo e desmascaramos as coisas, arrancando delas esta aparência terrível que nós as fazemos ter. Assim, não apenas não se trata de fazer crescer o número dos males que é necessário que soframos, mas é diminui-los muito, é colocarmo-nos em uma situação tal que não nos permita sermos surpreendidos pelas imposturas da Opinião que, ordinariamente, nos alarma falsamente e oferece-nos matéria de temor onde só deveria haver motivo de desprezo. Numa palavra, trata-se de evitar felizmente todo o incômodo e toda a pena que ela nos suscita. Premeditando desta maneiras os males, tornamos infalível uma ou outra dessas vantagens, quais sejam: não encontrá-los onde imaginamos que poderiam estar e, se eles aí estão efetivamente e se é impossível nos defendermos deles, que pelo menos só sejamos atingidos levemente por eles. Dessa forma, nós os amolecemos na medida em que os consideramos; corrigimos sua amargura e enfraquecemos sua Violência. O que sabemos nós se o cuidado de estudá-los nos trará alguma daquela alegria de nos protegermos deles? Ou alguma habilidade para isso? Mas, se fossemos tão infelizes a ponto de que esta premeditação nos fosse inútil; se não pudéssemos nem evitar nem diminuir os males, então, certamente, haveria motivo para escutar o aviso do último desses dois Filósofos, que nos aconselhava a desviar nosso espírito dos pensamentos tristes e incômodos, visto que não nos virá outro fruto da premeditação de nossa miséria além da antecipação dela e do crescimento de nossa dor. Sem dúvida, é importante que aqueles que ainda não adquiriram a glória de uma constância experimentada contra os assaltos da Fortuna, não parem seu pensamento sobre os males presentes ou sobre os passados; sobre as chagas que sangram ainda e que ainda não cicatrizaram; para que uma muito grande apreensão de sucumbir ante os ataques desta poderosa inimiga não as faça desconfiar de suas próprias forças, quando ele vierem ao nosso encontro junto com ela [a Fortuna; ndt]; e não as desencoraje da prática do excelente remédio que nós lhes preparamos para encontrar os males menos rudes e menos excitantes. Será suficiente que algumas vezes eles se proponham aqueles que lhes podem chegar; para que, como os novos soldados que se endurecem nas ocasiões menos perigosas, eles adquiram pouco a pouco essa coragem e essa firmeza necessárias para os grandes combates. Fique certo, portanto, que é indubitável que considerar sem medo os males é desarmá-los, é aniquilá-los. Da mesma forma que ver uma flecha vindo de longe é conseguir evitá-la facilmente; assim também será como que tornar leve a ferida e fazer com que não seja mortal.

NIEREMBERG, Jean Eusebe. L'art de conduire la volonté selon les preceptes de la Morale Ancienne & Moderne, tirez des Philosophes Payens & Chrestiens. Traduit du Latin de Jean Eusebe Nieremberg, Paraphrasé & de beaucoup enrichy par Louys Videl, de Dauphiné. Dedié à Monsieur de Lionne, Conseiller d'Estat ordinaire & Secretaire des Commandements de la Reyne Regente. Paris: Chez Jean Pocquet, 1657, pp. 499-503.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

I Preceito particular contra a opinião - Capítulo II

CAPÍTULO II
Além do mais, colheremos um duplo fruto desta premeditação. Ela nos dará o meio para nos protegermos das infelicidades e os afastará de nós; e se nos for necessário sofrê-las, ela nos fornecerá o bem de sofrê-las com paciência. Sabemos qual é o proveito que um Sábio da Grécia tirou do fato de ter previsto a fertilidade do ano [no original latino, Nieremberg cita Tales de Mileto (c. 624 a.C. – c. 558 a.C.); ndt]. Certamente, não é menor o proveito que vem da previsão da esterilidade da Fortuna, os poucos bens que temos que esperar e os espinhos que ela nos prepara. Nisso, encontraremos motivo para nos enriquecer muito mais do que aquele Filósofo. Com essa habilidade, adquiriremos o que há de mais precioso na vida, uma soberana tranquilidade. Assim como não é difícil evitar uma flecha quando a vemos chegar, sobretudo quando vem de longe, seremos capazes de nos garantir facilmente das afetações da Fortuna, quando as premeditarmos; não seremos ofendidos de forma alguma por elas, porque não seremos surpreendidos. Se for necessário que as infelicidades nos atinjam, ou se for impossível desviá-los de nós, pelo menos esta vantagem permanecerá conosco: tendo-as previsto, nós as enfraqueceremos. Da mesma forma que a água do mar se corrige e adoça passando pela terra, também é certo que, passando por nosso espírito, amassaremos a ponta de suas lanças e corrigiremos sua amargura. De onde vem, eu vos pergunto, que o tempo cura as dores mais violentas? Que ele seja o Médico dos mais duros incômodos? Que ele tenha remédios para os males que aparentemente parece não ter remédio? Sem dúvida é porque eles nos são sempre presentes, porque eles estão continuamente em nosso pensamento. Conhecemo-los, habituamo-nos a eles de forma que nos esquecemos o quão duros e terríveis eles são; nós nos acostumamos a eles; e a experiência explica por que não os sentimos mais, depois de os sentirmos por muito tempo. Assim como uma conversação muito livre diminui o respeito, também a familiaridade que temos com os males diminui em nós o respeito e arranca de nós a apreensão; e assim o uso faz em nós aquilo que a razão deveria fazer. A longa meditação é, para o Sábio, aquilo que o longo sofrimento é para o comum dos homens. Podemos pensar que ele [o Sábio; ndt] tenha sofrido os males sobre os quais ele tenha frequentemente pensado. Parece não apenas que ele tenha experimentado aqueles que poderiam lhe chegar, como também aqueles que podem chegar a outros; ele faz uma experiência geral, que o prepara para todo tipo de eventos, e de onde ele recolhe este excelente fruto que é o fato que, seja lá o que lhe acontecer, ele não achará nada infeliz e não se surpreenderá com nada. Ele disse: “Isso não me surpreende; este acidente, por mais infeliz que seja, encontrou-me pronto para recebê-lo; eu já o havia previsto há muito tempo; ele já estava em mim e não me chegou inopinadamente; eu não fiquei incomodado”. Eis o quão rara é a vantagem que lhe vem de sua premeditação. E certamente os males nos parecem muito maiores quando eles não nos dão tempo para considerá-los, e quando somos atacados por eles antes de que estivéssemos na defensiva. Com isso, nossa dor cresce pelo lamento que advém de nossa imprevidência. Afligimo-nos ainda mais quando pensamos que nossa infelicidade é fruto de nossa falta, quando nos damos conta de que poderíamos nos ter protegido e que estava em nosso poder evitá-la. Sem dúvida, as mudanças repentinas não causam menos mal ao espírito do que ao corpo; ele sofre muito com os ataques imprevistos. A Soberana Sabedoria que concedeu uma tão maravilhosa ordem a todas as coisas, e a concedeu para o bem do homem, não achou bom que ele tenha passado de um contrário a outro, e que não houvesse distância entre o inverno e o verão – não saímos de uma só vez do rigor daquele para os ardores deste; somos preparados através da doçura da Primavera, como de um temperamento necessário, para que nossa saúde não seja incomodada. A premeditação dos males nos prepara da mesma forma para sofrer sua violência; e disso recolhemos esta rara vantagem de não tomar por uma desgraça particular e que só acontece a nós aquilo que vemos acontecer a todos, e que sabemos ser infalível para a condição humana. Somos instruídos, através disso, a não ter por insuportável aquilo que muitas pessoas sofrem, e que é certo que todos os homens, indiferentemente, podem sofrer.

NIEREMBERG, Jean Eusebe. L'art de conduire la volonté selon les preceptes de la Morale Ancienne & Moderne, tirez des Philosophes Payens & Chrestiens. Traduit du Latin de Jean Eusebe Nieremberg, Paraphrasé & de beaucoup enrichy par Louys Videl, de Dauphiné. Dedié à Monsieur de Lionne, Conseiller d'Estat ordinaire & Secretaire des Commandements de la Reyne Regente. Paris: Chez Jean Pocquet, 1657, pp. 496-499.

I Preceito particular contra a opinião - Capítulo I

A ARTE
DE CONDUZIR
A VONTADE

LIVRO TERCEIRO
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PRECEITOS PARTICULARES CONTRA A OPINIÃO
PRIMEIRO PRECEITO
QUE é preciso premeditar os males

CAPÍTULO PRIMEIRO
Mas, seria inútil pretender conquistar a Verdade sem nunca chegar a ela, deixando imperfeita a ruína do Império da Opinião, sua perpétua inimiga, e não tendo todos os cuidados necessários para nos libertarmos de uma tão cruel servidão. Mais atrás, nós nos instruímos acerca dos meios infalíveis para nos livrarmos dos males que ela nos suscita. Podemos dizer que nossa cura está, de agora em diante, em nosso poder. Mas, como os remédios que se tomam em plena saúde por precaução e tão somente para se confirmar na saúde são mais agradáveis do que aqueles que são aplicados na doença, por necessidade; como o soldado só espera se armar quando está no campo de batalha e na presença do inimigo; e como é próprio de um sábio Capitão não dormir durante a trégua, mas se fortalecer e se munir de tudo o que lhe for necessário para se defender; também nós devemos empregar a pausa que recebemos da Fortuna para nos colocarmos em condições de tornar inúteis seus esforços que virão; pensando, durante o tempo em que ela nos tratar bem e nos acariciar, nos truques, nas injúrias que ela nos pode infringir; formando, durante a calmaria, a imagem da tempestade; prepando-nos e nos esforçando para a nossa salvação; da mesma maneira que quando ela está próxima, e como se estivéssemos a ponto de sermos atingidos por ela. Praticaremos, aqui, a máxima que um Sábio da Antiquidade nos deixou [no original latino, Nieremberg também não nomeia este "Sábio da Antiguidade", apenas cita um longo trecho do referido autor; ndt]: premeditar cuidadosamente os males, persuadindo-nos de que eles são feitos para nós, bem como para o resto dos homens, crendo firmemente que não há mal algum que não possa nos atingir nesse exato momento. Se estivermos em viagem, preparemo-nos como se estivéssemos em nossa casa e, nisso, encontraremos alguns motivos de dor – o incêndio ou a ruína de nossa casa, a morte ou a doença de nossos filhos, a perda de nossos bens, a perda daquela querida pessoa em posse de quem nós nos consolávamos de nossas perdas; numa palavra, coloquemo-nos na condição de quem caiu numa dessas infelicidades. Perguntar-se-á, para que serviria isso? Que vantagem poderíamos esperar de um pensamento tão triste? Certamente este: que é muito interessante estarmos preparados para receber, sem incômodos maiores, todo tipo de acidente; preparados a não achar nada estranho ou novo, em meio às mais duras desgraças que possam nos atingir; vermo-nos felizmente enganados por outro evento que não imaginaríamos que poderia ter acontecido; e finalmente tomarmos como ganho tudo aquilo que virmos acontecer para além do que esperávamos que pudesse acontecer. São estas as vantagens que essa premeditação nos produzirá. Ela nos servirá de muralha contra os mais violentos assaltos da Fortuna; por este meio, nos tornaremos capazes de nos defendermos contra ela; e todos os males que ela no suscitar nos serão muito pouco sensíveis, porque já nos serão conhecidos antecipadamente. Assim, portanto, praticando felizmente esta precaução, não correndo o risco que correm aqueles que se deixam surpreender pelo inimigo e facilitam, por seu descuido, sua própria perda, teremos o cuidado em todos os nossos desígnios de considerar seriamente de onde podem derivar os maiores problemas. Praticaremos, nesse ponto, aquilo que se faz na guerra: enviaremos nossos pensamentos adiante de nós, para fazer um reconhecimento do campo inimigo; nos dedicaremos a descobrir os inconvenientes que podem nos atingir. A Fortuna é exata, é regular em sua inconstância e em suas mudanças. Sem dúvida, somos todos – em todo o mundo – sujeitos a isso. Quando ela quer fazer o bem, ela se propõe a poucas pessoas; mas, quando ela quer fazer o mal, ela tem todos os homens como alvo. Dediquemo-nos, portanto, cuidadosamente para nos garantir desses males nos quais sua malícia e sua ligeireza poderiam nos fazer cair; não sejamos tão frágeis a ponto de crer que ela nos isenta deles, ou que ela tenha por nós algum respeito que ela nunca teve por alguma pessoa. É preciso mais esperar os efeitos de sua ira; e para não os achar estranhos, é preciso tê-los por infalíveis. Se não vemos segurança naquilo que queremos empreender; se, pelo contrário, as dificuldades nos parecem extremas nesses casos; se o perigo é evidente; guardemo-nos de cometê-lo sem uma necessidade absoluta, e naqueles momentos em que não teremos nenhum lugar para nos defender. Pode haver loucura maior do que fundar a esperança de um feliz sucesso sobre a malignidade da Fortuna, abertamente declarada nossa inimiga? Somente aqueles que não são sábios ou que se entediam com a vida, embarcariam num navio que fizesse água por todos os lados e que estivesse visivelmente a ponto de ir à pique. Certamente, é estar fora de si colocar-se voluntariamente em perigo. É uma das coisas das quais Catão se acusava. Ele se arrependia de ter feito, por água, o caminho que ele poderia ter feito por terra. Quer dizer que é necessário, sempre, tomar o partido mais certo, e manter a rota mais segura. Sem dúvida, não devemos nos aventurar por caminhos em que não seríamos capazes de evitar o perigo; e não devemos crer que um perigo é menor porque alguém conseguiu, fortuitamente, escapar; mas tão somente se for necessário que nos exponhamos a ele. Ora, é suficiente para isso que tenhamos algum respeito pela Virtude, cuja consideração é a coisa mais forte que poderia tocar uma alma generosa; então, certamente, não precisamos temer nada e não temos motivo para perder a coragem. É preciso que ajamos, nesse caso, com resolução e alegria; mas com luz e conhecimento, não com movimentos cegos e com uma impetuosidade brutal como acontece com aqueles que se jogam num precipício. É preciso, seriamente, imaginar as infelicidades futuras, premeditá-las, considerá-las com uma vista tranquila e segura, a fim de nos formarmos o hábito de não as temer quando elas nos chegarem, e para que elas nos sejam menos formidáveis quando se nos apresentarem. Diz-se que a Leoa, defendendo seus filhotes contra aqueles que querem levá-los, olha fixamente as lanças com as quais a atacam; fixa seus olhos nelas para não ficar assustada. A Virtude é muito mais generosa: não apenas ela faz com que pousemos nossa vista firmemente sobre as infelicidades, e as consideremos sem incômodos, como também ela nos levanta o coração junto com a fronte, ela nos arma contra elas, ela nos dá a força para vencê-las, dando-nos a habilidade para prevê-las; ela nos faz mesmo ir à frente delas; e como ela está absolutamente fora do poder da Fortuna, e visto também que ela não teme suas mudanças e seus caprichos, ela espera com constância todas as coisas e tira esta vantagem de sua espera: não se admira por nada, nada que lhe aconteça surpreende ou é uma novidade. Qualquer um que tenha chegado a este ponto, pode se gloriar de ter atingido o cume da Sabedoria.

NIEREMBERG, Jean Eusebe. L'art de conduire la volonté selon les preceptes de la Morale Ancienne & Moderne, tirez des Philosophes Payens & Chrestiens. Traduit du Latin de Jean Eusebe Nieremberg, Paraphrasé & de beaucoup enrichy par Louys Videl, de Dauphiné. Dedié à Monsieur de Lionne, Conseiller d'Estat ordinaire & Secretaire des Commandements de la Reyne Regente. Paris: Chez Jean Pocquet, 1657, pp. 491-496.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Quinto preceito - Capítulo III

CAPÍTULO III
Além do mais, se não podemos descobrir plenamente o sentido da Verdade, é preciso que nós o aprendamos daqueles que o possuíram eminentemente, que adquiriram sua inteira e perfeita inteligência. Sem dúvida, eles no-la poderiam dar suficientemente através das palavras. Isso, se nos fosse suficiente tirá-la de suas bocas; mas nós a tiramos muito melhor ainda de suas obras; nós nos instruímos com muito mais certeza através de suas ações – mais do que por seus discursos. Como fazemos muitas coisas com o testemunho de outros, atuaremos certas Verdades a partir do relatório daqueles que, as tendo conhecido felizmente, as praticaram utilmente em seguida. Abraçaremos o bem os imitando e tendo fé neles. Aqueles que uma alta Sabedoria e uma eminente piedade são considerados por nós como luzes e ornamentos do mundo. Diremos: “Os Filósofos e os Santos fizeram assim, por que eu não deveria também fazer o mesmo? Foi por meio disso que eles atingiram o ápice da Virtude; foi por meio disso que eles ganharam o Céu. Se esta Verdade que lhes fez fazer grande coisas, coisas que admiramos, não for capaz de me excitar, certamente o seu exemplo o fará. Por mais ligado que eu seja a meus próprios sentidos, me sentirei forçado de abandoná-los para seguir o seu [sentido; ndt]; conformar-me-ei, apesar de mim, talvez até mesmo com pesar. Sem dúvida, seus efeitos prevalecerão sobre minhas persuasões, e serão levados até mesmo sobre meus sentimentos; servir-me-ão de regra, manter-me-ão ligado à lei, com a qual será necessário que eu concorde. Pensarei no fato que não foram poucas as coisas que concederam a estes excelentes homens a graça de tão sublimes pensamentos e lhes fez produzir ações tão extraordinárias. Será que eu não consigo ver o quão constante é esta Verdade, segundo a qual as riquezas e os outros dons da Fortuna são extremamente contrários ao repouso do espírito? Ou a Verdade segundo a qual elas são perigosas a quem as ama? Que muito frequentemente elas causam infelicidade e ruína em quem as abraça? Será que esta verdade não é suficientemente forte para me comover? Ela o será na medida em que eu tiver presente aquilo que ela faz acontecer àqueles que a conheceram plenamente e penetraram até ao seu centro. Só tenho que imitá-los e seguir o caminho que eles seguiram. Só tenho que fazer o que eles fizeram, se eu não me tiver proposto ultrapassá-los e fazer melhor do que eles”. Esta Verdade que não me excita e não é capaz de me levar ao desprezo das riquezas inspirou a muitos Sábios, que, para se privarem inteiramente das riquezas e perdê-la sem a menor esperança de reavê-las, lançaram-nas no mar. Acerca disso, pensemos no Filósofo Crates [trata-se de Crates de Tebas (c. 365 a.C. - c. 285 a.C.); ndt] glorificando-se de haver evitado sua perda perdendo suas riquezas, e de se ter garantido de um naufrágio abandonando-as. Consideremos sua alegria por se haver livrado de um mau mestre como é o ouro, um mestre que mostra por seu falar e por seu rosto o mal que causa àqueles que o servem, e as contínuas apreensões que faz sofrer. Esta mesma Verdade fez com que Serapião [trata-se de Serapião Sindonita, monge egípcio que viveu no século IV; ndt] largasse todos os seus bens; esta Verdade o despojou tão absolutamente que podemos mesmo dizer que ela praticamente o deixou nu. E eis o mestre de todos os bens; aquele a quem todas as coisas pertencem soberanamente; o Senhor da Terra e do Céu, que ela [a Verdade; ndt] tornou tão pobre que não teve nem mesmo onde repousar a cabeça. Depois disso, será que podemos duvidar dela? Que espírito não ficaria persuadido e não se deixaria impressionar por ela? Certamente, onde as provas são assim tão manifestas, é supérfluo alegar testemunhas. Nomeamos três [Crates de Tebas, Serapião Sindonita e Jesus Cristo,que não aparece nomeado, mas é referido - "Senhor do Céu e da Terra", que não tinha "onde repousar a cabeça"; ndt]; mas nomearíamos trezentas, um número infinito. Eis como aquilo que não faríamos pela força da Razão, o fazemos pela força dos exemplos; eis como, por mais lânguido que seja o nosso Entendimento, eles [os exemplos; ndt] são fortes o suficiente para excitá-lo. Com isso, fica certo que, tão logo pensamos na virtude de outro, a imagem que se imprime em nosso espírito forma ali mesmo um secreto e salutar orgulho que nos faz crer que não somente somos capazes de nos igualar a eles, como também somos capazes de ir além deles. Muitas vezes, imaginamos que somente com fortes considerações e razões muito poderosas é que conseguimos formar em grandes desígnios que nos dão admiração. Persuadimo-nos que nunca é por pouca coisa, que estes homens excelentes que nos propomos imitar, e que excitam nossa emulação, tiveram todos os cuidados e aplicaram todos os seus esforços para conseguir vencer nessas coisas. Podemos, muito mais, conseguir um notável socorro em nós mesmos, excitando em nós uma generosa resolução de fazer o bem, bastando para isso que nos deixemos governar pela Razão e tão logo ela tenha sobre nós a potência absoluta que ela deve ter. É preciso nos lembrar deste feliz movimento que nos levou à prática da Virtude; pegar emprestado de nossa memória o vigor que falta ao nosso Entendimento, e aquecer este último através daquela: “No passado, eu me deixei tocar por esta Verdade; fui capaz de ser tocado por suas impressões; ela me persuadiu; por que, agora, ela não me toca? Se, antes, eu a deixei agir, o que me impede de deixá-la agora? Se, antes, fui algumas vezes virtuoso, certamente posso ser ainda; posso me dedicar para o bem, posso me dedicar, até mesmo, com mais segurança de que conseguirei, com mais certeza de que sou, para mim mesmo, um exemplo; de que não é sobre a promessa de outros que eu construo, mas sobre minha própria fé”.

NIEREMBERG, Jean Eusebe. L'art de conduire la volonté selon les preceptes de la Morale Ancienne & Moderne, tirez des Philosophes Payens & Chrestiens. Traduit du Latin de Jean Eusebe Nieremberg, Paraphrasé & de beaucoup enrichy par Louys Videl, de Dauphiné. Dedié à Monsieur de Lionne, Conseiller d'Estat ordinaire & Secretaire des Commandements de la Reyne Regente. Paris: Chez Jean Pocquet, 1657, pp. 487-491.