segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Primeiro preceito - Capítulo IV

CAPÍTULO IV
Se a razão não nos comove o suficiente para que a abracemos, se nós não ficamos suficientemente seguros com ela e não temos crença suficiente para fazer dela nossa guia; que, pelo menos, nós consideremos o extremo perigo que há no seguir a Opinião e que, ao menos, a incerteza evidente desta última nos leve a confiar na invariável firmeza da outra. Que nos lembremos de que a Opinião é um sonho perigoso de um homem que vela; e que ela nos causa a mesma pena, pelas impressões que ela nos dá, que os nossos pesadelos nos causam, através das ilusões e das quimeras que nos são colocadas dentro da imaginação. Ela, certamente, sempre foi criticada entre aqueles que se dedicaram ao estudo da sabedoria. Mas, aquele entre estes que a condenou mais altamente e que obteve o mais glorioso triunfo, foi Pirro, que, não se contentando apenas em acreditar que tudo aquilo que ela nos debita como mal não o é, e que não há mal algum nas coisas, além daquele que se imagina, justificou esta verdade através de si mesmo, tendo visto a si mesmo, com uma constância miraculosa, com os membros cortados e queimados, e não mudando em nada o rosto, não chegando mesmo a franzir o cenho. Que isso nos ensine o quão nos será de expediente acreditar que não há males; visto que, mesmo se os houver, não seremos capazes de nos enganar. E, pelo contrário, disso tiraremos uma vantagem considerável. Através disso, deceparemos a maior parte de nossa miséria, decepando a apreensão que a precede; porque, o que poderia temer aquele que não imagina nada que possa lhe causar sofrimento? Certamente, se estivéssemos livres do problema que os males que virão nos causam, seríamos isentos daquilo que eles têm de mais sensível e desagradável. A experiência comum verifica que sofremos muito menos, sem dúvida, no senti-los do que no esperá-los. Há homens rústicos e ávidos da boa carne, para quem a simples imaginação de uma carne deliciosa imprime de tal forma neles o gosto que, para dizer com o povo, a água lhes vem à boca. As crianças e os doentes rejeitam um remédio antes de lhe haverem sentido o sabor; eles têm como que a amargura do remédio em sua língua, quando o remédio ainda está em sua mão. De onde pode vir isso, eu vos pergunto? Seguramente, isso não é devido nem à carne nem ao remédio; mas se deve puramente à Opinião. É ela que causa em nós esta aversão ou este apetite; é ela que faz com que tenhamos esses falsos sentimentos acerca das coisas. Por isso, é preciso que nos resolvamos seriamente a nos desfazer dela [da Opinião; ndt], é preciso que nos curemos dessa persuasão que ela tem acerca do que é mal. E certamente, quando ele de fato existir e ele vier a nos enganar, pensemos que isso será uma grande felicidade, pois, através disso, nós os diminuiremos bastante e o descontentamento que por ventura vier só será suficiente para nos tirar das inquietudes e da pena.

NIEREMBERG, Jean Eusebe. L'art de conduire la volonté selon les preceptes de la Morale Ancienne & Moderne, tirez des Philosophes Payens & Chrestiens. Traduit du Latin de Jean Eusebe Nieremberg, Paraphrasé & de beaucoup enrichy par Louys Videl, de Dauphiné. Dedié à Monsieur de Lionne, Conseiller d'Estat ordinaire & Secretaire des Commandements de la Reyne Regente. Paris: Chez Jean Pocquet, 1657, pp. 429-431.

Primeiro preceito - Capítulo III

CAPÍTULO III
Portanto, é preciso que dediquemos todos os nossos cuidados no sentido de nos libertarmos dessa servidão; é preciso fazer todos os esforços possíveis para arruinar o Império da Opinião. Ora, a mais segura via para chegar a isso é, sem dúvida, examiná-la; para destrui-la, é suficiente entrar numa séria consideração sobre ela. Da mesma forma que, quando sonhamos, sofremos; quando imaginamos cair num precipício, ou que um inimigo coloca a espada em nosso pescoço, ou que estamos sendo perseguidos por algum animal selvagem, só conseguimos sair do sofrimento que essa imaginação nos causa, quando nos recolocamos no verdadeiro estado em que estamos; e dizemos, mesmo sonhando, que estamos sonhando; que aquilo que imaginamos não existe; que estamos em nossa cama e que não estamos no perigo que nossa imaginação perdida nos fez crer estar. Assim, quando nos parecer que tenhamos caído numa profunda desgraça, e que um poderoso problema nos devora, recolhamo-nos em nós mesmos e digamos com coragem que tudo não passa de uma ilusão que nos incomoda e que não é uma verdade; que aquilo que acreditamos ser, com efeito, está apenas em nossa imaginação; que é apenas uma máscara que nos assusta, ou um fantasma que nos alarma. Desta maneira, conseguiremos vencer mesmo nas dores mais obstinadas; esclareceremos nossas mais negras tristezas; elas desaparecerão diante de nós, como as nuvens que desaparecem diante do Sol. Através disso, dissiparemos todas as quimeras da Opinião; tornaremos seus artifícios vãos; e vendo que é somente ela quem nos faz mal, conseguiremos rir mesmo dos maiores horrores; caçoaremos da fraqueza onde tivermos caído em nossas lamentações. Será que não sentimos vergonha de ver que, se um copo ou outro recipiente semelhante vem a se quebrar e se fazer em pedaços, nós ficamos num estado de tal cólera, que se chega mesmo a parecer que tudo aquilo que possuímos de bens e de fortuna tenha caído ao mesmo tempo, e que, nisso, está a queda e a ruína mesma de nossa Razão? Um pedaço de cristal será o recife que a fará naufragar? E seremos tão censuráveis por ter um espírito tão pouco firme, tão pouco sólido, a ponto de ser comparável à fragilidade de um cristal? Eu vos pergunto: por que tanto barulho? O que pretendemos com todas as ameaças e injúrias que lançamos contra nossos criados? A este respeito, é preciso que apliquemos aquilo que Epícteto nos diz a respeito de tudo aquilo que acontece no mundo [trata-se de Epícteto (55-135); ndt]: que é preciso nos lembrarmos de que ele é feito da mesma maneira que essas coisas. Lembremo-nos de que não há nada de mais frágil do que o vidro; que sua natureza é quebrável; que este é o seu destino, por assim dizer. Certamente que os menores acidentes – pois mesmos eles acabam nos fazendo mal – são capazes de nos fazer muito, sobretudo quando é a Opinião que os provoca, sobretudo quando estamos esquentados pela cólera. Nesse ponto, podemos nos lembrar de um exemplo tirado de uma aventura acontecida com o conhecido Galeno, que justifica como ele não era menos Médico do espírito que do corpo, e que sua suficiência se estendia também para a cura das doenças do primeiro, assim como para a cura das doenças do corpo [trata-se de Cláudio Galeno (c. 131 - c. 200); ndt]. Voltando, um dia, de Roma a Pérgamo, com um Gortinense [cidadão de Gortina, na ilha de Creta; ndt], personagem bastante recomendado por causa de suas muitas qualidades, mas que as apagava todas devido à sua extrema prontidão para a cólera [no original latino, Nieremberg é mais detalhista na descrição: "Is comitem itineris Roma rediens habuit Gortynensem civem, pluribus quidem rebus non contemnendum, simplicem virum moribus, officiosum amicis, frugi secum, liberalem ad sumptus; sed cuius omnes istas dotes corrumpebat praecipiti phantasia furor"; que poderia ser traduzido assim: "No seu retorno de Roma, teve como companheiro um Cidadão de Gortina, verdadeiramente notável por muitas qualidades, homem de costumes simples, respeitoso com os amigos, moderado e, ao mesmo tempo, liberal no gastar; mas todas estes dotes eram corrompidos pelo furor de sua fantasia impetuosa"; ndt]; este cidadão embarcou uma parte de seus instrumentos no Porto de Corinto, para levá-los a Atenas; e tendo mantido o restante, alugou um carro e tomou seu caminho, por terra, junto com Galeno. Alguns dias depois, tendo pedido certos instrumentos a dois de seus Escravos, os quais ele queria ver naquele instante, e eles [os escravos; ndt], não conseguindo se lembrar, tão prontamente, onde eles estavam, e sua memória não estando igual à sua impaciência [à impaciência do cidadão de Gortina; ndt], ele ficou de tal forma sentido, e a Opinião que ele concebeu de que havia perdido aquele instrumento o encheu de tal forma de tanto furor que, os golpeando com uma espada, ele os encheu de tão grandes feridas que eles perderam muito sangue. Este espetáculo, fazendo-o voltar a si, e a razão retomando o lugar que a cólera lhe havia arrancado, fez com que ele sentisse tanto arrependimento e vergonha de ter se comportado daquela forma, que ele abandonou a companhia na qual estava e foi sozinho para Mégara, onde, reencontrando Galeno, que chegou ao mesmo tempo que ele, e lhe contando com dor aquilo que havia acontecido, ele lhe pediu que entrasse no quarto onde, colocando-se nu, apresentou-lhe uma correia e o conjurou a castigá-lo rigorosamente, dizendo que, por ter se tornado escravo de sua cólera, ele merecia, a bom direito, ser tratado como os Escravos, e sofrer a pena ligada à baixeza de sua condição. Mas, por mais instante que ele fosse, Galeno se recusou todo o tempo; finalmente, o Gortinense, tendo se jogado a seus pés, e tendo empregado novas conjurações acompanhadas de lágrimas, ele lhe prometeu satisfazê-lo, desde que, de sua parte, cumprisse uma condição à qual ele o queria obrigar, que era escutá-lo tranquilamente e sem interrupções sobre algo importante que ele queria dizer. O Gortinense, tendo ficado de acordo, escutou um longo e sério discurso sobre o fato de não estar nisso o meio para reprimir sua cólera, sobre o fato de que tudo o que era necessário era empregar a Razão, que é o soberano remédio contra todas as doenças do espírito. Esta verdade imprimiu-se tão fundo no Gortinense e produziu um efeito tão bom, que ele, a partir de então, adquiriu uma moderação evidente e nunca mais caiu no excesso no qual, tão frequentemente, ele costumava se lançar. Ele se curou das fraquezas e das ilusões da Opinião. Certamente, ela é tão perigosa, e as desordens que ela causa são tão estranhas, que eu conheci uma mulher que acreditava ter perdido tudo aquilo que ela possuía de mais precioso, quando perdeu um cãozinho que era seu único amor; passou dois dias inteiros chorando e, durante esse tempo, não comeu nem viu a luz do dia. Quer dizer, seus olhos estavam nas trevas da mesma forma que sua razão e que, somente com a luz do Entendimento, ela quis ainda perder a outra [no texto latino, Nieremberg é mais claro: "Unicum morum remedium, ratio est. Novi & ipse biduo abstinentem cibo omni, & luce foeminam, solum tenebris & lacrymis incumbentem, ob interitum catuli: pari caligine corpus damnavit mens caeca: carvit ratione recta, efficaci opinionis pharmaco". Que poderia ser assim traduzido: "O único remédio para os costumes é a razão. Eu mesmo conheci uma mulher que, por causa da morte de seu cãozinho, se absteve, por dois dias, da comida, fechada num quarto escuro, sem deixar entrar a mínima luz, desfazendo-se continuamente em lágrimas: a mente cega condenou a igual prisão o corpo: ficou privada da reta razão, fármaco eficaz contra a opinião". É interessante observar que há uma diferença - que já se fez notar em outros momentos do texto  e sobre a qual teremos a oportunidade de dedicar uma explicação mais aprofundada - entre mente e razão, entre entendimento e razão. Diferença que não é estranha, nesse contexto histórico-cultural; ndt].

NIEREMBERG, Jean Eusebe. L'art de conduire la volonté selon les preceptes de la Morale Ancienne & Moderne, tirez des Philosophes Payens & Chrestiens. Traduit du Latin de Jean Eusebe Nieremberg, Paraphrasé & de beaucoup enrichy par Louys Videl, de Dauphiné. Dedié à Monsieur de Lionne, Conseiller d'Estat ordinaire & Secretaire des Commandements de la Reyne Regente. Paris: Chez Jean Pocquet, 1657, pp. 425-429.

Primeiro preceito - Capítulo II

CAPÍTULO II
“Terei eu medo da morte? Sem dúvida, nisso tenho menos fundamento razoável que no resto. Eu fantasio que ela seja malvada, mas me engano, pois ela não o é; isso é fruto apenas da persuasão que me faço. Se me desfaço desse engano, eu a acharei não apenas suportável, como também doce. É pura aparência que tenhamos por mal aquilo que os miseráveis desejam, aquilo que é salutar mesmo aos que são felizes, aquilo que faz com que os primeiros parem de sofrer e os outros de agir mal! Será certamente uma injúria ter este sentimento por ela; é como que faltar à razão não tomar por um bem aquilo que encerra inteiramente nossos males. E, necessariamente, é preciso confessar ou que ela não tem mal algum ou, ao menos, que não é possível chamar como mal algo que nos livra do mal. Por que eu ficaria incomodado com ver acabar aquilo que me incomoda ver durando? O que diríamos do Piloto que se lamentasse de ter chegado ao Porto, tão impacientemente desejado durante a tempestade? Que loucura seria a minha recusar o socorro daquele que vem me descarregar de um fardo cujo peso me destruiria? Quando eu detenho a morte, eu detenho aquilo que eu desejo; eu firo meus próprios sentidos; não estarei de acordo comigo mesmo. Mas, é a maneira de morrer, e não a morte, que me causa apreensão; eu temo que ela seja cheia de violência e de infâmia. Certamente, quem não quer morrer, sempre morre de morte violenta, visto que só se pode fazer por força aquilo que não é de seu agrado. Mas, não há morte inconveniente para quem bem viveu; se minha vida é irrepreensível, minha morte será sem ignomínia. Ficaria irritado como o fato de ela ter sido repentina; não gostaria que ela me tomasse em plena saúde? Mas, será possível que eu não seria capaz de entender, a partir disso, que a doença é uma boa coisa, visto que eu a desejo [à morte; ndt]? Será que não entendo que, se ela é ruim – e que a morte o seja também – eu serei certamente muito extravagante de não desejar dois males? Sendo que o mais certo e fácil seria evitar o primeiro pelo segundo. Mas, eu tenho medo de que ela venha muito cedo, e que ela me faça perder um longo tempo que ainda tenho para viver. Desde quando eu posso pensar em lhe prescrever um tempo que ela não ousa antecipar? Além do fato de não se poder criar convenções com ela; sem dúvida, é preciso entender que, por mais adiantada que ela seja, ela é sempre tardia, visto que ela sempre pode chegar a qualquer momento. Se há alguma morte que vem muito cedo, é somente a morte dos malvados, para quem ela previne da necessidade de se arrependerem e que, no entanto, nunca pensam nela; mas, como as pessoas de bem sempre estão preparadas, como ela pensam nisso incessantemente, elas nunca serão surpreendidas. Eis que é sutil, alguém me dirá; mas, nem por isso, é menos verdadeiro”. Escutemos, a este respeito, estas belas palavras de um grande Filósofo [é interessante notar que todo este trecho entre aspas não faz parte da argumentação de Nieremberg, mas foi acrescentada pelo tradutor, Louys Videl. Evidentemente, não se trata de um acréscimo que estrapola a linha de argumentação do autor, mas apenas, como o próprio tradutor afirmou na introdução que escreveu, enriquece a proposta de Nieremberg ao apresentar essa espécie de "diálogo interno". Quanto ao filósofo sobre o qual o texto refere, no texto latino, o autor escreve: "Subtilia ista, dices: an & vera? Egregium Epicteti monitum: Quemadmodum ad quaestiones & sophismata nos exercemus: ita quotidie contra phantasiam exerceri nos convenit; ab illa proponuntur nobis quaestiones". Trata-se, portanto, de Epícteto (55-135); ndt]. Da mesma forma como sentimos prazer em nos exercitar na disputa e de tratar de questões sutis, que nos aguçam o espírito e nos formam no hábito de nos defendermos mais facilmente contra as finezas e as cavilações dos Sofistas, devemos, da mesma forma, nos exercitarmos na resolução das questões e das dúvidas que nossa imaginação nos propõe; e temos também que nos aguerrir contra ela, a fim de não nos deixarmos nunca surpreender e nunca deixar que ela tenha alguma vantagem sobre a nossa razão. E mesmo que, segundo um outro Filósofo, tenhamos nisso três grandes adversários que são extremamente absolutos – a Opinião, a Paixão e os Costume –, é certo que, como o primeiro é o mais poderoso de todos, visto ser aquele que estabelece o reino e a dominação sobre os outros dois, será, para nós, suficiente que lhe resistamos e tiremos o jugo que tem sobre nós, para não ter nada a temer [no original latino, Nieremberg afirma: "Tametsi tria tingendarum rerum pigmenta, opinionem, cosuetudinem, affectum, Pyrrho censuerit". Trata-se, portanto de Pirro de Élis (c. 360 a.C. – c. 270 a.C.), filósofo grego considerado o primeiro pensador cético; ndt]. Sem dúvida, sendo que estaremos livres da Opinião, não teremos nenhuma dificuldade para nos livrarmos da tirania da paixão e do costume.

NIEREMBERG, Jean Eusebe. L'art de conduire la volonté selon les preceptes de la Morale Ancienne & Moderne, tirez des Philosophes Payens & Chrestiens. Traduit du Latin de Jean Eusebe Nieremberg, Paraphrasé & de beaucoup enrichy par Louys Videl, de Dauphiné. Dedié à Monsieur de Lionne, Conseiller d'Estat ordinaire & Secretaire des Commandements de la Reyne Regente. Paris: Chez Jean Pocquet, 1657, pp. 422-425.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Primeiro preceito - Capítulo I

A ARTE
DE CONDUZIR
A VONTADE

LIVRO TERCEIRO
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PRIMEIRO PRECEITO
QUE é um soberano remédio contra os males que a Opinião nos causa estudá-la e conhecê-la

CAPÍTULO PRIMEIRO
Mas, há um meio raro e infalível de evitar os inconvenientes nos quais a Opinião nos faz cair. Temos um soberano remédio contra os males que ela nos suscita. É preciso sempre relembrarmo-nos de que ela é infiel e enganadora; que, semelhante aos quadros que nascem do capricho dos pintores, ela não representa nada de verdadeiro [no original latino, Nieremberg apresenta esta mesma argumentação assim: "Non leve adversus hanc momemtnum putes, cognosci: si tibi ubique renunties: Pergula pictorum, veri nihil, omnia falsa"; ndt]; é preciso sempre considerá-la como uma operária do erro e da mentira; desconfiar dela incessantemente, e nunca ter fé nela. A morte violentou nossos filhos, perdemos nossos bens, fomos decepcionados em nossas pretensões, o mundo nos recusa sua estima; numa palavra, vemos uma tempestade de infelicidade pronta para cair sobre nossa cabeça; mas não nos assustemos, esperemos com os pés firmes e pensemos: “Eu me engano ao acreditar que sejam as coisas a me fazer sofrer; somente a minha Opinião é responsável por isso; este é o erro onde me encontro quando as tomo como males em si mesmas; nisso, não há nada capaz de me afligir; o mal que eu lhes imputo vem inteiramente de mim, sou sozinho o autor da desordem que acuso como sendo causado por elas. Tenho horror à pobreza; mas é porque eu a pinto e a represento horrível; e figurando-a assim para mim mesmo, sou eu mesmo o responsável pelo medo que sinto; eu é que dou a ela, através da minha Opinião, este rosto que me assusta; com efeito, ela não o tem por si mesma; ela não é nem aflitiva nem assustadora, mas, ao contrário, é agradável e traz alegria. Sem me apoiar aqui sobre as provas que o Cristianismo poderia me dar, segundo as quais ela tem encantos e graças que provocam em nós muito mais do que desejo de fugir, mas desejos de abraçá-la voluntariamente e de deixar todas as coisas para segui-la, empregarei os exemplos daqueles que, não tendo sido em nada iluminados do alto, e só tendo as luzes e ajudas naturais, a amaram por si mesma, e só tiveram como objeto a satisfação que a acompanha. Penso naquele bom velho da Arcádia que, nunca tendo saído dos limites de um pequeno poço, de onde ele tirava apenas aquilo de que tinha necessidade para se alimentar, saboreava contentamentos que aqueles que estão cheios de riquezas não conhecem; e foi julgado pelo Oráculo como mais feliz do que Giges, um dos mais poderosos Príncipes do mundo. Penso também naquele Ateniense cuja felicidade foi testemunhada pelo primeiro dos Sábios da Grécia; não esquecerei também aquele Filósofo cuja feliz miséria tentou o grande Alexandre e causou inveja à opulência e ao luxo. Tantos outros cuja sabedoria é ainda venerada por nós e que encontraram delícias na pobreza – Crates, Aristides, Demónax são os nomes que me vieram à cabeça [no original latino, Nieremberg se refere a vários personagens, além dos citados pelo tradutor: "Horreo paupertatem, quia horridam puto; & dum puto, horrorem mihi incutio: at laeta Aglao fuit; felix Tello, affectata Diogeni, quaesita Crateti, pertinax Demonaci, gloriosa Epaminondae, studiosa Horatio, iusta Aristidi, secura cunctis". O que poderia ser assim traduzido: "A pobreza me horroriza, porque a penso horrível: mas enquanto a penso, eu mesmo me causo o horror; mas ela foi alegre para Aglao, feliz em Tello, fingida por Diógenes, buscada por Crato, vivida com pertinácia por Demónax, gloriosa para Epaminondas, amada por Horácio, justa em Aristides, segura para todos". Assim, os personagens referidos por Nieremberg são: Aglao, de quem não encontramos nenhuma referência; Tello, de quem também não encontramos referências precisas; Diógenes de Sínope (c. 404 a.C. - c. 323 a.C.), filósofo da Escola Cínica, que, segundo a tradição, perambulava pelas ruas e vivia dentro de um barril; Crates de Tebas (c. 365 a.C. - c. 285 a.C.), filósofo também da Escola Cínica e mestre de Zenão de Cítio e discípulo de Diógenes de Sínope, sacrificou toda a sua fortuna em nome dos princípios de sua escola de pensamento; Demónax (séc. II d.C.), filósofo da mesma Escola Cínica, e que, segundo se conta, viveu ainda mais austeramente que Diógenes de Sínope; Epaminondas (c. 418 a.C. - 362 a.C.), general e político grego, responsável por levar Tebas a se tornar uma potência hegemônica na Grécia, substituindo Esparta, é bastante elogiado pelos seus contemporâneos pelo fato de desdenhar toda riqueza material, tendo vivido em grande simplicidade e asceticamente; Quinto Horácio Flaco (65 a.C. - 8 a.C.), poeta lírico e filósofo romano, que tinha uma forma de pensamento muito semelhante a dos Epicuristas, sobretudo quanto ao que concerne à brevidade da vida; e Aristides de Atenas (c. 535 a.C. - c. 468 a.C.), estadista e estragistas ateniense cognominado o Justo, conta-se que morreu em extrema pobreza, não tendo nem mesmo o suficiente para o próprio funeral; ndt]. Penso também no famoso Epaminondas, para quem ela não trouxe menos glórias do que suas façanhas, e que ele não quis trocar nem por toda a riqueza do mundo. Sobre isso, farei uma justa reflexão: perdi a razão quando temi aquilo que tantos homens tão excelentes amaram, quando tomei como um mal aquilo que tiveram como um bem. Assim, descobrirei a injustiça da Opinião, quando me persuade do contrário; e vendo, com isso, como é perigoso escutá-la, rejeitarei seus conselhos, como sendo cheios de imposturas e de traições. Fui atacado pela calúnia? Ela não me fere, eu direi para mim mesmo, mais do que o tanto que eu imagino; ela não consegue me pegar, a não ser se minha Opinião assim o crê. Será que serei louco de me afligir? É um palavra e não uma pedra que sai da boca do caluniador; não é um raio, é uma palavra que não tem força nenhuma por si mesma. Sem dificuldade, o espírito é mais firme do que o corpo; sendo assim, que vergonha para este [o corpo; ndt] que cai por terra quando o outro [o espírito; ndt], diante da mesma calúnia, permanece de pé! Que vergonha que o mais forte seja abatido! Como pôde ser feita a ferida no meu coração se nada foi feito ao meu corpo? De onde pode ter vindo a flecha que atingiu primeiro um sem ter atingido o outro? Visto não haver nenhuma marca exterior, sem dúvida que ela veio de dentro; é um golpe da minha Opinião; foi ela quem me feriu e não o caluniador. Pois bem, ele me cobrirá de injúrias, ele vomitará todo o seu fel sobre mim; eu não revidarei, eu não direi uma só palavra. E, diferentemente do povo que crê ser uma desonra ceder em ocasiões semelhantes, eu acreditarei ter tido uma grande vantagem sobre ele, assumindo a postura mais forte e mais honesta. Eu manterei a boca fechada e em silêncio; ele ficará cansado de tanto falar e eu não me cansarei de calar. E, depois de tudo, o que quer que ele faça e por maior que seja o excesso de sua insolência contra mim, o que me acontecerá? Eu não apenas não perderei nem mesmo um fio de cabelo, não sentirei nem mesmo o dedo dolorido. Ao contrário, serei eu a causar-lhe problemas, na medida em que é certo que, se eu não me aferroo, o aferroarei sensivelmente; ele ficará fora de si, ao me ver sem emoção; eu o colocarei em desespero, se não ficar em cólera. Desta maneira, pararei o transbordamento de suas palavras, acalmarei a tempestade que ele tiver suscitado; enquanto que, seu eu o contestasse, eu o tornaria ainda mais violento; assim como só é possível reter um vento impetuoso que passa por duas janelas fechando uma – após o que ele para inteiramente, ele não sopra mais de um lado a outro –, também será fechando minha boca que pararei este turbilhão que sai da sua. Se esta verdade, cuja experiência não me permite duvidar, precisa ser confirmada por exemplos, trarei na memória Dionísio e Catão  que triunfaram, dessa maneira, sobre a malícia de um maledicente e, dessa mesma maneira, fizeram crescer bastante a reputação de sua sabedoria” [ao que tudo indica, trata-se de Dion de Siracusa ou Dionísio I (408 a.C. - 354 a.C.) que foi um admirador e aluno de Platão, e tirano de Siracusa; e de Marco Pórcio Catão (234 a.C. – 149 a.C.), que foi um político romano, tendo ocupado os cargos de Cônsul e de Censor; ndt]. Certamente, isso é um combate, onde a vitória não se ganha menos por resistência que por fuga, e onde as pessoas de bem entram com tanta desvantagem quanto as pessoas malvadas que costumam, nisso, ser mais fortes, na medida em que estão continuamente praticando o mal e não têm menos facilidade em dizer do que em fazer. Enquanto que, os demais, nisso, têm uma repugnância natural e, consequentemente, têm extrema dificuldade, na medida em que são sempre novatos e desajeitados, por assim dizer, e que lhes falta, nisso, o exercício e a vontade.

NIEREMBERG, Jean Eusebe. L'art de conduire la volonté selon les preceptes de la Morale Ancienne & Moderne, tirez des Philosophes Payens & Chrestiens. Traduit du Latin de Jean Eusebe Nieremberg, Paraphrasé & de beaucoup enrichy par Louys Videl, de Dauphiné. Dedié à Monsieur de Lionne, Conseiller d'Estat ordinaire & Secretaire des Commandements de la Reyne Regente. Paris: Chez Jean Pocquet, 1657, pp. 418-422.