quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Primeira escolha moral - Capítulo VI


CAPÍTULO SEXTO
O amor é Monarca, da mesma forma, destes afetos e, em última instância, é Chefe supremo: ele traz todos atrás de si e os estimula. A primeira engrenagem do relógio, à qual está ligado o peso, move todas as demais. A última esfera do Mundo gira as inferiores, como nos ensina a Filosofia vulgar. O imã, depois que toca um determinado lado da agulha, a faz girar. Da mesma forma os afetos se viram para um lado ou para outro na medida em que são manuseados e regulados pelo amor. Acontece também que sejam contrários os movimentos do ódio, da ira, da tristeza e do temor, pois estes afetos se relacionam ao mal; e o objeto do amor é o bem, de forma que, mesmo esta contrariedade, também é originada pelo amor. Ninguém odiará alguma coisa a não ser porque ame outra coisa. Duas engrenagens do relógio giram em direções opostas: enquanto uma gira, a outra roda no sentido oposto. Diz-se, da mesma forma, que as Estrelas giram em direção contrária das Esferas, ainda que sejam guiadas por um mesmo orbe. Este é, portanto, um empreendimento da vontade: se aparelha de tantos instrumentos, se arma com tantos princípios de alegria, e tem uma abundante oficina de paz, para que não peque por falta de ação ou para que não seja infrutífero o trabalho da tranquilidade. Porém, é necessário que todos os instrumentos sejam conectados e ordenados, para que aquilo que seja destinado para o alívio não seja causa de tormento. Os relógios estragados são inúteis.

NIEREMBERGH, Giovani Eusebio. Dell'Arte per ben reggere la volontà, insegnata da Padre Gio: Eusebio Nierembergh della Compagnia di Giesu, Libri Sei, Trasportati dalla Latina nella Lingua Italiana. All'Illustrissimo e Reverendissimo Signore Monsignore Daniello Delfino, Vescovo di Filadelfia, & Eletto Patriarca d'Aquileia (Gabriello Baba, Trad.). Venezia: Nicolò Pezzana, 1669, pp. 377-378.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Primeira escolha moral - Capítulo V


CAPÍTULO QUINTO
Estes afetos são regulados com o oráculo que o amor oferece e que quase são uma ordem de sua voz, visto que inclinam ao bem diretamente e a nenhum outro permite que administre em seu lugar: ele estima tanto o bem que não permite que nenhum outro cuide dele. Há também alguns movimentos oblíquos, como são aqueles que dizem respeito ao mal como rival daquele bem que o Amor publicou, que, ainda que obedeçam ao mesmo amor, e sejam obrigados por suas leis (o mal não empreende guerra alguma ou foge de quem não tenha o bem em causa), estando ao seu lado, não o ajudam, mas o substituem pelo ódio como comandante, para que os modere imediatamente. Ele se afasta para bem longe do mal, a quem não se digna favorecer com sua presença. Exercendo o cargo de Procônsul, o ódio combate contra aquele e toma conhecimento. O ódio, vice-rei do amor, empreendendo uma funesta guerra contra os males, guia sob suas bandeiras os afetos lúgubres, incita aqueles que são atos que deveriam ser combatidos, para que conservem o bem seguro para o Rei amor, seja com a fuga, seja com a luta. Contra este soldado enérgico, é que a ira se dirige, num corpo a corpo decisivo: quam strage multa bellicosus spiritus portenta cordis servientis vicerit [em latim no original italiano; e pode ser traduzido assim: antes que o espírito corajoso tenha derrotado com massacre imenso os monstros do coração escravizado. Trata-se do trecho de um poema de Aurélio Clemente Prudêncio chamado Psychomachia, ou Batalha das Almas, que descreve a luta da fé, apoiada pelas virtudes cardeais, contra a idolatria e seus vícios; ndt]. A audácia prepara os mantimentos e tudo o que é necessário para as guerras futuras. Entre aqueles que preveem sem o conflito estar presente, é a tristeza que se coloca contra o mal próximo, e contra o mal remoto é o temor que se apresenta.

NIEREMBERGH, Giovani Eusebio. Dell'Arte per ben reggere la volontà, insegnata da Padre Gio: Eusebio Nierembergh della Compagnia di Giesu, Libri Sei, Trasportati dalla Latina nella Lingua Italiana. All'Illustrissimo e Reverendissimo Signore Monsignore Daniello Delfino, Vescovo di Filadelfia, & Eletto Patriarca d'Aquileia (Gabriello Baba, Trad.). Venezia: Nicolò Pezzana, 1669, pp. 376-377.

Primeira escolha moral - Capítulo IV


CAPÍTULO QUARTO
O Amor guia a todos eles como um Maestro, da mesma forma que Apolo preside as Musas [Apolo é tido pela mitologia greco-romana como uma das divindades mais importantes, assumindo uma série de papéis, entre eles o de líder do coro das Musas. É Homero, no seu Hino a Apolo, que o mostra, no Olimpo, tocando a lira para presidir o coro; ndt]; é do Amor que todos os outros afetos dependem, na medida em que devem servir à alma, proporcionando-lhe os cuidados de que precisa. Porém, com a injustiça, a ordem ajustada é perturbada, a união é desfeita, e a Monarquia se muda em tumulto, e a República em povo. O Amor, Reis dos afetos, comanda a partir do trono do Coração: todos os outros obedecem prontamente, servem e agem a partir de cada aceno seu. Ele rege todos os outros: se o amor está faltando, ele rege as promessas; se ele está em perigo, vem a dor; se ele estiver presente, vêm as alegrias. Ele decreta as leis e promulga que se deve seguir o bem: os outros se preparam para as obras, a fim de exercerem as funções de seu próprio encargo. A cobiça se prepara a fim de buscar o bem, difundindo e levando a vontade para longe e para o futuro. A esperança é enviada a se esforçar no sentido de sustentar, para benefício próprio, a demora da expedição. A alegria é aquela que, por seu próprio privilégio, dispõem de festivos espetáculos para aplaudir a chegada do bem, recebendo-o com festas alegres, solenemente, dando-lhe alojamento quando o recebemos.

NIEREMBERGH, Giovani Eusebio. Dell'Arte per ben reggere la volontà, insegnata da Padre Gio: Eusebio Nierembergh della Compagnia di Giesu, Libri Sei, Trasportati dalla Latina nella Lingua Italiana. All'Illustrissimo e Reverendissimo Signore Monsignore Daniello Delfino, Vescovo di Filadelfia, & Eletto Patriarca d'Aquileia (Gabriello Baba, Trad.). Venezia: Nicolò Pezzana, 1669, pp. 375-376.

Primeira escolha moral - Capítulo III


CAPÍTULO TERCEIRO
Basta ter enumerado estes, pois todos os demais se regulam pelas normas destes: corrigidos estes, os demais serão emendados. Erradamente, porém, alguns Estoicos colocam entre os afetos também a serenidade da alma e a tranquilidade do coração, a mansidão e a segurança. Não são afetos, mas efeitos dos mais modestos e comuns afetos. Além do mais, os afetos universalmente têm seu nome derivado do ímpeto. O Oceano é perturbado por diversas ondas. Ora uma brisa agradável o encrespa suavemente; ora um sopro mais veemente o agita; ora uma tempestade cruel agita as ondas, o açoita com o Austral enfurecido; privando o Timoneiro da arte, do Navio e dos marinheiros; e aqui e ali, ferindo a madeira, finalmente, ou o afunda nos turbilhões, ou o empurra para que se parta ao meio nos rochedos. A alma muda, semelhantemente, de três maneiras: ou com amenidade, ou com maior rigor, ou com extrema violência. Aqueles movimentos que se acalmam, e se parecem com nascentes, são chamados afetos; na medida em que crescem, e ficam fortes, passam a se chamar paixões; quando atacam com impetuosidade e perturbam a razão, são chamados perturbações. Há outros afetos mais domésticos, e que podemos dizer que obtiveram uma espécie de jus de cidadania na vontade, que são conhecidos por sua frequência, familiaridade, proximidade e treino, que acabaram conquistando o nome de costume. Todos estão unidos e juntos: uns derivam dos outros, se sucedem alternadamente ao nascerem, são mutuamente pais e filhos de si mesmos, às vezes, chegam mesmo a ser também ao mesmo tempo destruidores de si mesmos, uns oprimem os outros. Uma onda, às vezes, é rompida por outra onda que vem; outras vezes, ela fica maior; da mesma forma é um afeto, que pode ser enfraquecido por outro afeto que vem, como é o caso da alegria que é diminuída pela dor, ou pode ser enfurecido, como é o caso das promessas de amor, ou como é o caso do desejo que se enfurece por meio do amor. Eles são os adornos da paz, a família da vontade, o principado do coração.

NIEREMBERGH, Giovani Eusebio. Dell'Arte per ben reggere la volontà, insegnata da Padre Gio: Eusebio Nierembergh della Compagnia di Giesu, Libri Sei, Trasportati dalla Latina nella Lingua Italiana. All'Illustrissimo e Reverendissimo Signore Monsignore Daniello Delfino, Vescovo di Filadelfia, & Eletto Patriarca d'Aquileia (Gabriello Baba, Trad.). Venezia: Nicolò Pezzana, 1669, pp. 374-375.