quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Oitavo preceito - Capítulo II

CAPÍTULO II
Julgaremos falsa e enganadora a Opinião que temos das coisas; reformaremos nossos pensamentos e nossos sentimentos, se viermos a considerar a grandeza de nossa condição, se lembramo-nos que somos a imagem de Deus; será soberanamente feliz, sem riquezas e sem Volúpia; será cheio de glória, sem luxo e sem fausto; sua alegria precederá puramente de si; não buscará nada fora de si; e somente ele bastará. Depois disso, será que ainda somos tão pouco razoáveis a ponto de chamar de bens aquelas coisas que não pertencem a Deus e, sem as quais, ele permanece em sua suprema beatitude? Que coisas? Aquelas que são abundantes entre os malvados, possuindo as quais eles são miseráveis; as coisas que os animais mesmos possuem, e que não lhes fazem mais felizes. Será que ainda encontraremos alguém que, vendo que o soberano bem nos é proposto como a regra de todos os movimentos de nosso espírito e o fim ao qual devem aspirar todas as potências de nossa alma, ainda esteja tão enganado a ponto de acreditar que seja necessário buscar essa regra no vício? Ou que acredite que se chegue a esta regra através de más ações, pela infidelidade, pela fraude, pelo desregramento e pelas desordens que produzem, ordinariamente, as riquezas e as Volúpias? Verdadeiramente, esperar a felicidade da miséria é saber muito mal de onde ela vem; se prometer a felicidade pelas coisas onde ela não está, coisas que são absolutamente incapazes de no-la dar, que nunca serão capazes de estabelecê-la, e que, pelo contrário, a destroem; tudo isso, é saber muito mal de onde pode vir a verdadeira felicidade. No entanto, é um bem tão precioso e raro, desejado por todos, buscado mesmo pelos malvados – e, às vezes, o que é igualmente maravilhoso e deplorável é o fato de eles se tornarem malvados justamente para obtê-lo; eles renunciam ao bem para chegar até a ele; eles se tornam injustos e criminosos para se tornarem felizes. Mas, quão frustrados eles são quanto ao efeito de seu desejo? Quão vã é a sua expectativa? Certamente, eles se afastam tanto mais de seu objetivo, quanto mais imaginam se aproximar. Por um inevitável desprezo, crendo ir direto rumo à felicidade, eles irrompem e caem na miséria. Eu vos pergunto, de onde pode proceder isso, se não do fato de eles não irem pela boa via e nem sequer saberem qual é o verdadeiro caminho para a felicidade? Ora, será sabê-lo e mantê-lo sem dúvida, ir direto para Deus; considerá-lo como nossa suprema e última felicidade; buscar a abraçar a Virtude, que é uma felicidade que nos leva a outra, e que nos permite adquirir essa felicidade desde já, nesta vida. Para dizê-lo em uma só palavra, nos restringirmos à posse dos bens que dependem puramente de nós é estar em vista da chegada ao soberano bem. Talvez, me dirão: mas no que eles consistem? Certamente, em se submeter em todas as coisas à Vontade de Deus, e em lhe render uma inteira obediência; em amá-lo de todo coração; em buscar com todo o nosso poder os meios para agradá-lo e servi-lo. Através disso, adquiriremos infalivelmente a felicidade; e talvez até com a rara vantagem de nos tornarmos semelhantes a ele [a Deus; ndt]; de partilhá-la com ele. Através disso, aprenderemos a não nos ligarmos aos bens temporais e perecíveis. E da mesma forma como a linha não cresce pelos pontos, nem a superfície cresce pelas linhas, a felicidade também não aumenta pela quantidade de coisas que buscamos nesta vida. Considerando que Deus, que é o soberano bem, é constante e imutável; que ele é sempre o mesmo, que é eterno; nós excitaremos em nós a escolha pelos bens que são da natureza e da condição deste; que não são, mais do que ele, sujeitos à corrupção e ao perecimento; visto que não é pela posse dos bens da Fortuna que seremos felizes; visto que a alegria não está no meio do incômodo que ordinariamente a acompanha; visto que ela não se encontra absolutamente na inquietude que é uma seguidora infalível dela. E não pensemos que nos seja uma vantagem não conhecer seus defeitos, não creiamos que não saber que eles são caducos seja capaz de causar a nossa felicidade, que nossa ignorância possa estabelecê-la. Aqueles que embarcam num navio cujas madeiras são frágeis ou mal encaixadas não estão em segurança simplesmente por não saberem dos perigos aos quais estão se expondo. Não podemos também ser felizes apenas conhecendo sua instabilidade, na medida em que a certeza que temos disso nos mantém, finalmente, numa contínua apreensão pela perda. Dir-me-ão que, se ela chegar, não será preciso que eu tome cuidado; que, pelo contrário, é preciso que eu me console com o pensamento que, sendo, como são, vis, não vale a pena que eu me aflija. Sendo assim, como pode parecer que a felicidade, a mais nobre e mais preciosa de todas as coisas, possa ser encontrada em meio àquelas que não são dignas de nossa estima e merecem apenas o nosso desprezo?

NIEREMBERG, Jean Eusebe. L'art de conduire la volonté selon les preceptes de la Morale Ancienne & Moderne, tirez des Philosophes Payens & Chrestiens. Traduit du Latin de Jean Eusebe Nieremberg, Paraphrasé & de beaucoup enrichy par Louys Videl, de Dauphiné. Dedié à Monsieur de Lionne, Conseiller d'Estat ordinaire & Secretaire des Commandements de la Reyne Regente. Paris: Chez Jean Pocquet, 1657, pp. 535-539.

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