terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sétimo preceito - Capítulo II

CAPÍTULO II
Ficamos contentes por conhecer o curso e a influência dos Astros. Aprendamos que, por mais sublime e excelente que seja o conhecimento a que chegarmos, nunca poderemos nos gloriar razoavelmente de sermos sabedores e, muito menos, de sermos Sábios, se não conhecermos nossa enfermidade natural, se ignorarmos os defeitos a que está sujeita a nossa condição. Certamente é por este conhecimento que deve começar nosso saber. E, sobretudo, porque, sem ele, tudo será imperfeito e inútil. Somos curiosos por novidades; corremos atrás de coisas extraordinárias e raras. E eu vos pergunto, pode haver algo de mais novo, de mais extraordinário e raro do que ver que largamos o vício e abraçamos a Virtude? Agrada-nos conciliar os diversos e contrários sentimentos dos Outros. Não faríamos, porém, melhor conciliando nossos próprios sentimentos? Arrancando a repugnância e a contrariedade de nossos votos e de nossos desejos? Queremos instruir e corrigir os outros, e não pensamos em nos instruir e nos corrigir. Afetamos saber aquilo que se faz no mundo, e não cuidamos daquilo que devemos fazer. Estudamos tudo, menos aquilo que nos permite conhecermo-nos melhor, menos aquilo que mais nos importa. Que julgamento se fará de nós e se poderá fazer além de um julgamento muito desvantajoso, se, sabendo que nossa casa pegou fogo e vendo que várias pessoas correm de várias direções para apagá-lo, nós não corrêssemos, e nos divertíssemos considerando a forma das asas de uma mosca, contando as patas de uma lagarta, distinguindo as cores da concha de um caramujo? Insensatos que somos! Nosso coração queima de cobiça; a ambição, a avareza e o resto das paixões são fogos que o consomem; e, no entanto, nosso pensamento não se dedica a remediar isso! Não deixaríamos a casa de nosso vizinho pegar fogo; correríamos para adverti-lo, e não o faríamos perder tempo contando absurdos. E não sentiríamos vergonha, num perigo mais eminente, de nos entreter com visões e sonhos, de não nos advertir dos males intestinos que nos afligem, e não pensar de forma alguma em prevenir e em entreter aqueles pelos quais somos ameaçados. Nós dissimulamos e escondemos de nós mesmos a Sentença de morte pronunciada irrevogavelmente contra nós, na pessoa de nossos primeiros parentes. Escondemos de nós mesmos as emboscadas que a Fortuna nos prepara incessantemente; as imperfeições e as misérias inseparáveis de nossa condição. É disso que precisamos nos informar, e sobre o que devemos conversar antes de todas as coisas: se nos é permitido satisfazer à inclinação natural que temos pelo saber, se nos é permitido adquirir outros conhecimentos, se antes não formos instruídos neste. Não deixemos nosso espírito correr atrás de coisas que só podem lhe causar dor; mas empreguemo-lo na busca por meios de evitar aquilo que nos pode causar a dor. Aprendamos a sofrer com constância as infidelidades e as malícias da Fortuna, que são devidas apenas a ela, sem excitar contra ela, como costumamos fazer, nosso ódio. Aprendamos a ser pessoas de bem; a nos fazermos amar por aqueles que o são; a nos conformarmos absolutamente à Vontade de Deus; a evitarmos, o máximo que pudermos, irritar sua justiça; a nos tornarmos dignos de sua graça. Para dizer em uma só palavra, é preciso estudar a Sabedoria. É o verdadeiro estudo, para não dizer o único, que o Entendimento deve abraçar. Pelo menos, é aquilo no que, preferentemente, ele deve se aplicar. Certamente, as mais sublimes ciências, sem esta, são inúteis e vãs, são más e perniciosas.

NIEREMBERG, Jean Eusebe. L'art de conduire la volonté selon les preceptes de la Morale Ancienne & Moderne, tirez des Philosophes Payens & Chrestiens. Traduit du Latin de Jean Eusebe Nieremberg, Paraphrasé & de beaucoup enrichy par Louys Videl, de Dauphiné. Dedié à Monsieur de Lionne, Conseiller d'Estat ordinaire & Secretaire des Commandements de la Reyne Regente. Paris: Chez Jean Pocquet, 1657, pp. 530-532.

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