segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Primeiro preceito - Capítulo II

CAPÍTULO II
“Terei eu medo da morte? Sem dúvida, nisso tenho menos fundamento razoável que no resto. Eu fantasio que ela seja malvada, mas me engano, pois ela não o é; isso é fruto apenas da persuasão que me faço. Se me desfaço desse engano, eu a acharei não apenas suportável, como também doce. É pura aparência que tenhamos por mal aquilo que os miseráveis desejam, aquilo que é salutar mesmo aos que são felizes, aquilo que faz com que os primeiros parem de sofrer e os outros de agir mal! Será certamente uma injúria ter este sentimento por ela; é como que faltar à razão não tomar por um bem aquilo que encerra inteiramente nossos males. E, necessariamente, é preciso confessar ou que ela não tem mal algum ou, ao menos, que não é possível chamar como mal algo que nos livra do mal. Por que eu ficaria incomodado com ver acabar aquilo que me incomoda ver durando? O que diríamos do Piloto que se lamentasse de ter chegado ao Porto, tão impacientemente desejado durante a tempestade? Que loucura seria a minha recusar o socorro daquele que vem me descarregar de um fardo cujo peso me destruiria? Quando eu detenho a morte, eu detenho aquilo que eu desejo; eu firo meus próprios sentidos; não estarei de acordo comigo mesmo. Mas, é a maneira de morrer, e não a morte, que me causa apreensão; eu temo que ela seja cheia de violência e de infâmia. Certamente, quem não quer morrer, sempre morre de morte violenta, visto que só se pode fazer por força aquilo que não é de seu agrado. Mas, não há morte inconveniente para quem bem viveu; se minha vida é irrepreensível, minha morte será sem ignomínia. Ficaria irritado como o fato de ela ter sido repentina; não gostaria que ela me tomasse em plena saúde? Mas, será possível que eu não seria capaz de entender, a partir disso, que a doença é uma boa coisa, visto que eu a desejo [à morte; ndt]? Será que não entendo que, se ela é ruim – e que a morte o seja também – eu serei certamente muito extravagante de não desejar dois males? Sendo que o mais certo e fácil seria evitar o primeiro pelo segundo. Mas, eu tenho medo de que ela venha muito cedo, e que ela me faça perder um longo tempo que ainda tenho para viver. Desde quando eu posso pensar em lhe prescrever um tempo que ela não ousa antecipar? Além do fato de não se poder criar convenções com ela; sem dúvida, é preciso entender que, por mais adiantada que ela seja, ela é sempre tardia, visto que ela sempre pode chegar a qualquer momento. Se há alguma morte que vem muito cedo, é somente a morte dos malvados, para quem ela previne da necessidade de se arrependerem e que, no entanto, nunca pensam nela; mas, como as pessoas de bem sempre estão preparadas, como ela pensam nisso incessantemente, elas nunca serão surpreendidas. Eis que é sutil, alguém me dirá; mas, nem por isso, é menos verdadeiro”. Escutemos, a este respeito, estas belas palavras de um grande Filósofo [é interessante notar que todo este trecho entre aspas não faz parte da argumentação de Nieremberg, mas foi acrescentada pelo tradutor, Louys Videl. Evidentemente, não se trata de um acréscimo que estrapola a linha de argumentação do autor, mas apenas, como o próprio tradutor afirmou na introdução que escreveu, enriquece a proposta de Nieremberg ao apresentar essa espécie de "diálogo interno". Quanto ao filósofo sobre o qual o texto refere, no texto latino, o autor escreve: "Subtilia ista, dices: an & vera? Egregium Epicteti monitum: Quemadmodum ad quaestiones & sophismata nos exercemus: ita quotidie contra phantasiam exerceri nos convenit; ab illa proponuntur nobis quaestiones". Trata-se, portanto, de Epícteto (55-135); ndt]. Da mesma forma como sentimos prazer em nos exercitar na disputa e de tratar de questões sutis, que nos aguçam o espírito e nos formam no hábito de nos defendermos mais facilmente contra as finezas e as cavilações dos Sofistas, devemos, da mesma forma, nos exercitarmos na resolução das questões e das dúvidas que nossa imaginação nos propõe; e temos também que nos aguerrir contra ela, a fim de não nos deixarmos nunca surpreender e nunca deixar que ela tenha alguma vantagem sobre a nossa razão. E mesmo que, segundo um outro Filósofo, tenhamos nisso três grandes adversários que são extremamente absolutos – a Opinião, a Paixão e os Costume –, é certo que, como o primeiro é o mais poderoso de todos, visto ser aquele que estabelece o reino e a dominação sobre os outros dois, será, para nós, suficiente que lhe resistamos e tiremos o jugo que tem sobre nós, para não ter nada a temer [no original latino, Nieremberg afirma: "Tametsi tria tingendarum rerum pigmenta, opinionem, cosuetudinem, affectum, Pyrrho censuerit". Trata-se, portanto de Pirro de Élis (c. 360 a.C. – c. 270 a.C.), filósofo grego considerado o primeiro pensador cético; ndt]. Sem dúvida, sendo que estaremos livres da Opinião, não teremos nenhuma dificuldade para nos livrarmos da tirania da paixão e do costume.

NIEREMBERG, Jean Eusebe. L'art de conduire la volonté selon les preceptes de la Morale Ancienne & Moderne, tirez des Philosophes Payens & Chrestiens. Traduit du Latin de Jean Eusebe Nieremberg, Paraphrasé & de beaucoup enrichy par Louys Videl, de Dauphiné. Dedié à Monsieur de Lionne, Conseiller d'Estat ordinaire & Secretaire des Commandements de la Reyne Regente. Paris: Chez Jean Pocquet, 1657, pp. 422-425.

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