quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Primeira máxima - Capítulo VI

CAPÍTULO SEXTO
Mas, pressupomos que os favores e a liberalidade da Fortuna sejam, para nós, inumeráveis e sem limites, que não se contentando de nos confiar tudo que ela tem de bens e nos deixando fazer livre uso, ela se livra da propriedade e converte em dom o que é um empréstimo, e algo que é apenas deposto se torna um presente. Será que somos tão frouxos no sofrimento a ponto de ela ter vantagem sobre nós? Ela nos arruína mais e a menos honesta de todas; nos obriga vergonhosamente a sua inconstância e a seus caprichos; faz nossa inimiga nossa amante; rouba nossa liberdade e, consequentemente, rouba um bem que ultrapassa todos os outros bens juntos, um bem que não poderá ser substituído por nenhum outro. Pressupomos que ela os submeteu inteiramente ao nosso poder e que eles dependem, assim, absolutamente de nós, assim como um escravo depende de seu mestre. Será que não sabemos que há muito pouca segurança na fidelidade dos escravos de quem, como só são mantidos pela força, só se pode esperar o ódio, a ordinária rebeldia e preguiça, a libertinagem e a fuga? Uma família de pessoas livres vale, incomparavelmente, muito mais, sem dúvida. Nela nós podemos confiar inteiramente e tanto mais nos assegurar quanto aos serviços que ela nos presta, visto que vêm do amor que ela tem por nós, que é o princípio e o fundamento. As coisas que dependem a Vontade são como esses criados nascidos de forma feliz, sem nenhuma mancha de servidão. São filhos livres de uma mãe livre, que sentem a alegria de sua condição, que não podem ser sujeitados nem obrigados, que estão numa absoluta independência. Pelo contrário, tudo o que está fora do controle da Vontade, necessariamente, está na condição de servidão, é um escravo perpétuo e, às vezes, é até mesmo sujeitado pelos escravos. Eis o quanto a condição daqueles que ela [a Fortuna; ndt] liga a si através de seus favores é infeliz e deplorável, visto ser uma condição tão incerta que não pode existir escravo mais fraco que não seja capaz de despojá-los [àqueles que a Fortuna liga a si; ndt] de tudo, que não seja capaz de tirar-lhe a própria vida, tirar-lhes os bens, as honras e todo o resto de vantagens que vêm dela [da Fortuna; ndt]. E, na verdade, que liberdade as coisas podem ter, quando pertencendo a nós, estão à disposição de todos? Podem nos ser tiradas a qualquer momento e passar para a posse de outro? São sujeitas a mil desencontros e a uma infinidade de inconvenientes. Guardemos, pois, muito bem de nos assegurarmos quanto a estes escravos infiéis e fugitivos, e não sejamos tão fracos a ponto de nos afligir quando eles nos deixam; é melhor que, antes, nós os deixemos e nos previnamos deles afastando-os de nós. Que cada um diga para si o que um Filósofo disse após a fuga de seu escravo [no original latino, Nieremberg se refere a Diógenes, o Cínico: “Dicat quisque, quod Cynicus, cum servus suus Manes aufugit: Turpe est Manem sine Diogene vivere posse; Diogenem sine Mane non posse”. Diógenes de Sínope (404 ou 412 a.C. – 323 a.C.); ndt], seria muito vergonhoso e muito estranho que Manes podendo viver sem Diógenes, Diógenes não pudesse viver sem Manes. Assim como os bens da Fortuna podem ser sem a sabedoria, a sabedoria pode ser sem eles. E, para bem dizer, só é quando ela se separa deles que ela consegue verdadeiramente ser feliz. Há desonra para um homem de condição livre subjugar-se àqueles que o servem, ser um criado de criados, pois isso seria como a infâmia de ser escravo de escravos... Quanta desonra mais seria se o fosse por escolha? Escravizar-se voluntariamente e deixar-se acorrentar por vontade própria?

NIEREMBERG, Jean Eusebe. L'art de conduire la volonté selon les preceptes de la Morale Ancienne & Moderne, tirez des Philosophes Payens & Chrestiens. Traduit du Latin de Jean Eusebe Nieremberg, Paraphrasé & de beaucoup enrichy par Louys Videl, de Dauphiné. Dedié à Monsieur de Lionne, Conseiller d'Estat ordinaire & Secretaire des Commandements de la Reyne Regente. Paris: Chez Jean Pocquet, 1657, pp. 145-147.

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