terça-feira, 24 de agosto de 2010

Terceira máxima - Capítulo II

CAPÍTULO SEGUNDO
Se alguém, encontrando-se levado pela impetuosidade de uma torrente, encontrasse uma árvore que lhe oferecesse segurança e, por assim dizer, lhe estendesse seus braços, não se prenderia a ela? Não se ligaria a ela firmemente? Somente a Deus podemos recorrer, para não perecer, no fluxo impetuoso das coisas do mundo e na violência com a qual elas nos carregam. Somente Deus pode nos garantir contra o naufrágio. Todo o resto, certamente, é movediço e frágil; e muito longe de ser capaz de nos reter, se deixa levar também muito facilmente. Considerai, eu vos peço, disse um grande Santo [trata-se de São Paulino de Nola; ndt], a velocidade com a qual os dias fogem de nós; não existe roda mais inesperada e que gire mais rapidamente. Vede com todas as partes do Universo diminuem, correm e perecem. Tudo o que imaginamos como bem para nós e que pensamos ter seguro em nossas mãos, nos escapa, passa sem retornar, e leva consigo nossos espíritos que se ligaram de forma tão infeliz a uma vã aparência, a uma sombra de bem. A condição das coisas humanas é parecida a um teatro, onde a face muda de repente por causa da diversidade dos personagens que aparecem; ela não é mais sólida e não tem mais firmeza do que essas imagens vãs que nosso espírito cria durante o sono. Assim, podemos muito bem nomeá-la [à condição humana; ndt] uma comédia, uma visão, um sonho; e se quisermos uma imagem ainda mais natural [para representar a condição humana; ndt] a encontraremos na contínua agitação do mar. Quem, vendo-se à mercê das ondas, ao descobrir uma Ilha ou um porto, não empreende todos os esforços possíveis para ali chegar? Saibamos que será infalível a nossa perda no mar do mundo se não seguirmos em direção a esse porto que vimos acima de nós, que é permanente e firme, que é eterno; ou seja, se não recorrermos a Deus. É nEle apenas que devem procurar a salvação aqueles que querem se salvar das ondas e das tempestades da Fortuna. Ele é a única coisa constante, é a raiz profunda de todas as coisas. Por mais forte que seja uma árvore, a violência dos ventos é capaz de arrancá-la do chão, carregar seus galhos, destruir seu tronco; apenas suas raízes são invioláveis, porque elas estão escondidas. Assim, tudo o que há no mundo é perecível, e apenas Deus não o é. Tudo o que amamos fora disso segue a condição de nossa natureza e, consequentemente, é enfermo e mortal como ela; e não seríamos capazes de evitar sua perda, se não todos os dias e horas, certamente uma vez e num momento. A mesma lei que nos submete à necessidade da tumba, submete todas as coisas que agarramos nessa vida: elas não são mais isentas do que nós mesmos. Mas, ao invés de nos esperar e de só ir [para a tumba; ndt] junto conosco, elas nos precedem e vão sem nós, advertindo-nos de nosso fim através do seu fim. Todavia, admiramos sua fragilidade e sua morte, por assim dizer, não nos lembrando que somos frágeis e mortais; surpreendemo-nos de sua fragilidade, não pensando em nenhum momento na nossa.

NIEREMBERG, Jean Eusebe. L'art de conduire la volonté selon les preceptes de la Morale Ancienne & Moderne, tirez des Philosophes Payens & Chrestiens. Traduit du Latin de Jean Eusebe Nieremberg, Paraphrasé & de beaucoup enrichy par Louys Videl, de Dauphiné. Dedié à Monsieur de Lionne, Conseiller d'Estat ordinaire & Secretaire des Commandements de la Reyne Regente. Paris: Chez Jean Pocquet, 1657, pp. 169-171.

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