sábado, 21 de agosto de 2010

Primeira máxima - Capítulo XI

CAPÍTULO UNDÉCIMO
Quais são, portanto, os bens que devemos considerar verdadeiramente como nossos? Podemos ficar certos da posse de que bens? Que não poderão nos ser retirados nem contestados por ninguém? Sem dúvida, são os bens do espírito; a bondade, a inocência dos hábitos, as ações honestas e legítimas, as afeições saudáveis, as boas obras e todo o resto de coisas que pertencem à Virtude, que estão em sua jurisdição e sob o seu domínio. Em uma palavra, tudo aquilo que está sujeito à Vontade, tudo aquilo que lhe deve obediência e dela depende soberanamente. É apenas sobre isso que podemos ter poder; porém, não temos poder algum sobre as coisas que pertencem à Fortuna. E certamente ainda que pareça que ela nos deixe [aquilo que é de sua posse; ndt], ainda que nos pareça que podemos ser seus mestres e que, com efeito, elas estejam em nossas mãos, elas não estão de forma alguma a nossa disposição. Guardemo-nos de acreditar que, por causa disso, seremos menos felizes. Reconheçamos, pelo contrário, que nossa alegria consiste exatamente em não possuir nada dessas coisas; e que foi partilhado conosco algo de muito mais alto, visto que tudo o que há de nobre e precioso nos pertence, e tudo o que há de abjeto e vil pertence a ela. Assim, ainda que não possuamos seus bens, não devemos pensar que somos menos ricos; pelo contrário, nós o somos ainda mais quando não temos seus favores e sua ajuda. Nossa riqueza é ainda maior, visto que procede puramente de nós mesmos e, consequentemente, não é manchada pelo lixo da cobiça – não há, portanto, nenhum pedaço de lama misturado em nosso ouro. Mas, nós decaímos dessa tão digna e nobre partilha quando nos abandonamos ao amor das coisas exteriores. Eis aqui, certamente, a maior perda que podemos sofrer: buscando bens fora de nós, perdemos aquilo que temos dentro de nós, que vale mais do que todas as riquezas, que todas as superfluidades da Fortuna. Perdemos uma vontade reta e bem ordenada, um desejo legítimo das coisas, que é o bem e como que o patrimônio de cada um em particular. Esta vontade se desvia e se agarra quando se lança na busca das coisas que não dependem dela, e perdemos, em nós, a tranquilidade a partir do momento em que imaginamos encontrá-la [à tranquilidade; ndt] em outros lugares. Assim, esse duplo fracassso nos chega: perder nossos próprios bens e não obter os dos outros, ser não apenas desprovido de toda a nossa posse, como também de decair de nossa esperança; um e outro é iguamente cheio de vergonha e de desespero.

NIEREMBERG, Jean Eusebe. L'art de conduire la volonté selon les preceptes de la Morale Ancienne & Moderne, tirez des Philosophes Payens & Chrestiens. Traduit du Latin de Jean Eusebe Nieremberg, Paraphrasé & de beaucoup enrichy par Louys Videl, de Dauphiné. Dedié à Monsieur de Lionne, Conseiller d'Estat ordinaire & Secretaire des Commandements de la Reyne Regente. Paris: Chez Jean Pocquet, 1657, pp. 158-159.

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