sexta-feira, 16 de abril de 2010

Primeiro prelúdio - Capítulo XVI

CAPÍTULO XVI
Todavia, pervertemos o uso de um tão nobre e raro instrumento. Por um estranho e cruel abuso, nos servimos dele contra nós mesmos, ao invés de nos servirmos dele contra a má sorte. Fazemos daquilo que deveria ser a nossa salvação a causa da nossa ruína. É por isso que o Poeta Menandro [que viveu na Grécia entre c.342 a.C. e c.291 a.C.; ndt] assumiu como tema principal a deploração de nossa condição, estimando-a mais infeliz que a dos animais. Ele teve piedade do homem, quando se deu conta dos cuidados com os quais o homem trabalha para construir sua própria aflição, tornando-se assim o operário do próprio mal. Porém, ele não foi tão injurioso contra a Natureza, acreditando-a culpável: ele não chegou nem mesmo a pensar que a nossa miséria fosse um efeito de seu [da Natureza] ódio. E quando ela não quis que participássemos de seus favores, sendo mesmo seu desígnio nos excluir inteiramente deles, qual a necessidade que podemos ter, se somos ricos por nós mesmos e não pelas vantagens que vêm dela? E se, pelo benefício do espírito, temos mais bens do que ela nos poderia dar, e que ela nem sequer quis nos dar, visto que ela ama nosso repouso, e teme nos dar matéria para problemas e inquietudes, teme nos fazer uma liberalidade ruinosa. Além do mais, como um alaúde bem afinado, tocado por uma boa mão, oferece um maravilhoso prazer e alegra os que o escutam; e como um alaúde desafinado, entre as mãos de um ignorante, é extremamente importuno, que causa sofrimento; assim também o instrumento do qual queremos aprender o uso e que tem a felicidade como objetivo e como termo de sua operação – nossa vontade bem composta e bem ajustada a si mesma – nos oferece uma singular alegria; enquanto que, estando desordenada e não tendo nem regras nem justeza, ela nos causa uma grande aflição, elas nos dá um extremo aborrecimento. Todos os Operários buscam, curiosamente, os melhores instrumentos para sua arte, eles estudam para se valer adequadamente desses mesmos instrumentos, eles sentem prazer nisso e se glorificam disso. Por que não teríamos nós o mesmo cuidado na mais necessária de todas as artes? Não há nada de mais natural e de mais ordinário ao homem do que o uso de sua vontade, mas não há nada que ele entenda e faça menos do que usá-la. É por isso que ele tem hábito sem nunca ter ciência. Deve-se a que infelicidade que ele faça tão mal uso de uma coisa da qual ele se serve a todo momento? Deve-se a que infelicidade que ele tenha tão pouca atenção a um instrumento que ele sempre tem nas mãos? Mostramos até aqui a utilidade singular e rara que recebemos do uso da vontade. Em seguida, veremos a certeza; justificaremos também que ela não é menos infalível que maravilhosa, e porque não é uma Obra da Vontade apenas, e que ela não a produz sem ser poderosamente ajudada nisso pelo entendimento, nós nos reservaremos a assinalar em seu lugar os notáveis ofícios que ela recebe dele.

NIEREMBERG, Jean Eusebe. L'art de conduire la volonté selon les preceptes de la Morale Ancienne & Moderne, tirez des Philosophes Payens & Chrestiens. Traduit du Latin de Jean Eusebe Nieremberg, Paraphrasé & de beaucoup enrichy par Louys Videl, de Dauphiné. Dedié à Monsieur de Lionne, Conseiller d'Estat ordinaire & Secretaire des Commandements de la Reyne Regente. Paris: Chez Jean Pocquet, 1657, pp. 41-43.

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